Eu sou a lei...

"O Rei está Nu"

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Lapso

‎”Então, com uma ponta de faca
Dessas que se abate boi
Desenhei na sua pele o símbolo do meu signo
E deixei os últimos traços de modo que
O sangue que escorria, caia dentro do copo.
Sangue venoso.
Então bebi
Meu corpo absorveu e adquiriu anti corpos…
Nunca mais sofri
Nunca mais tive febre.
As borboletas do estômago estão agora
Presas com percevejos em meus álbuns de coleção.”

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Surreflair

Hoje pela manhã acordei amante da preguiça.
Coloquei o dedo na tomada para arrepiar o cabelo. 
Ingeri boletos e recados, de nada mais me lembro.
No Astra, a voz no rádio falava sobre efeito dominó, estufa, borboleta e calandra. Nada absorvi. 
A mocinha que fica na esquina dessa vez se atrasou. 
Teve feriado essa semana?
Bocejo, abro o financeiro. 
Cifras e cifrões, necessito de um violão.
Bobagens e spams, vírus firewall
Vozes, ordens, impostos, postos, postes, luz, telefone
Não necessariamente nessa ordem
Psico, eco, logia. Ajuda do dia…

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Cigarro, Apenas um Substituto da Masturbação?

Freud dizia que o cigarro é apenas o substituto da masturbação. Numa civilização repressora dos instintos sexuais, que prefere investir sua energia libidinal mais no trabalho que no prazer, o stress gerado pela ausência de uma satisfação plena criaria uma tensão que deveria ser sublimada de alguma forma. 

A masturbação seria o calmante necessário para essa energia reprimida e acumulada dentro do corpo do homem impedido pelo “princípio da realidade” de ter tanto prazer quanto desejasse. 

Mas como nossa cultura culpabiliza este ato solitário (mais barato e mais seguro que uma prostituta, mas menos prazeroso que o amor pago ou não pago), resta ao homem o estravazamento no vício (cigarro, drogas e bebida), na neurose ou na violência. Quem não consegue liberar a tensão de alguma forma, termina com um câncer inusitado (somatização) ou comendo feito um maluco (principalmente chocolate e gordura) e morrendo por doenças ligadas ao consumo destes alimentos.

O uso do cigarro seria uma das saídas mais decentes. O vício seria, portanto, apenas uma forma de se compensar instintos latentes que os costumes de um mundo civilizado empurram para as regiões misteriosas do inconsciente. A satisfação gerada pelo cigarro produz uma sensação de libertação desta tensão entre desejo e insatisfação. Essa sensação é similar ao relaxamento gerado pelo orgasmo.

Há explicações químicas para o prazer gerado pelo cigarro. Segundo a médica Paula Basinelli, “se fumar não fosse prazeroso, ninguém o faria. O fato é que o cigarro se firma cada vez mais como uma das drogas mais eficazes para combater a ansiedade e depressão, estados emocionais típicos do nosso estilo de vida”. “A nicotina ativa neurotransmissores no cérebro responsáveis pela liberação de substâncias como a Dopamina e a Serotonina, que são poderosos antidepressivos”, explica a cardiologista Jaqueline Scholz Issa, autora do livro Deixar de fumar ficou mais fácil. Para Basinelli, “a dupla Dopamina + Serotinina parece mesmo imbatível. A primeira dá sensação de alegria, felicidade e bem-estar. Já a Serotonina é um estimulante que dá coragem, bom humor e controla o apetite. Perfeito, não?”. 

Mas há questões que vão além da química. O cigarro tem um valor cultural que ultrapassa a leitura simplória do vício causado pela nicotina ou pela leitura freudiana da questão. Desde o glamour dos fumantes no cinema, quando o fumante de tabaco se eleva à condição existencial de uma personalidade psicológica intensa, até à ideia de um companheiro para a solidão, o cigarro ocupa nossas vidas há séculos fazendo parte de rituais sociais significativos para nossa convivência sócio-cultural.


Uma vez perguntaram a Freud por que ele fumava tantos charutos se sabia que o cigarro era apenas um substituto das frustrações. Ele respondeu peremptoriamente: “Às vezes, um cigarro é apenas um cigarro”.

Sim, é possível, caro Sigmund. No vício ou uso do cigarro (pois há usuários, como eu, que não são viciados) há implicações de várias naturezas. Entre elas, uma que está sendo desrespeitada atualmente ao se colocar o fumante quase que na posição de um criminoso social: a liberdade do cidadão de fazer o que quiser com sua própria vida, dedicando-se a um prazer de livre escolha. 

Junto a essa proibição, o controle sobre a propriedade privada dos bares, impedidos de permitirem o uso do cigarro (mesmo em fumódromos). Como alertou João Pereira Coutinho, no seu artigo publicado no caderno “Ilustrada” da Folha de São Paulo, do dia 18/08/09, “proibir o fumo em lugares fechados, como bares ou restaurantes, é um ataque à propriedade privada e à liberdade de cada proprietário decidir que tipo de clientes quer acolher no seu espaço. O mesmo raciocínio aplica-se aos clientes, impedidos de decidir livremente onde desejam ser acolhidos”.

O que se deve garantir é o direito do cidadão em decidir que bar ele quer frequentar; se odeia cigarro, ele é livre para que procure um bar de não fumantes. Quem está desrespeitando a lei é o Estado, que deveria ser processado pelos donos de bares. Se o cigarro fosse um produto proibido, como a maconha o é, aí, sim, o Estado poderia impedir os bares de liberarem o fumo, mas sendo livre o uso de cigarro (e outros entorpecentes como o uísque, vodka, cerveja etc.) é incoerente a sua proibição em estabelecimentos particulares.

É incoerência dizer que o cigarro mata num país onde os índices de criminalidade são terríveis, onde a poluição ambiental e sonora e a química dos enlatados envenenam diariamente as células de nossos corpos tornando-os propensos, por isso, ao câncer. Mas… outro dado médico: viver em uma cidade poluída é mais arriscado que fumar um maço de cigarros por dia? Segundo o Dr. Alessandro Loiola: “Fique sabendo que o risco de câncer associado à poluição é 100 vezes menor que o risco trazido pelo cigarro. Largue este hábito maldito agora”.

E o excesso de trabalho a que é submetido o trabalhador mal pago do terceiro mundo? Doenças na coluna, nas mãos, nas pernas, tensões do trânsito, alimentação pobre, lazer precário e noites mal dormidas (em São Paulo, para se chegar ao trabalho a classe pobre e média acorda às 5 da manhã e chega em casa às 9 da noite ― perde-se quatro horas da vida dentro de ônibus lotados, que não andam, às vezes tendo-se de fazer o trajeto de pé). Consequência: morte tão lenta quanto a causada pelo cigarro.


Se pensarmos em termos freudianos, o cigarro, como a prostituta, tem uma função social bem positiva. Se a prostituição fosse proibida, com certeza o número de estupros aumentaria substancialmente. Com a proibição ao cigarro o nervosismo vai subir, pois está se criando uma espécie de proibição moral ao se demonizar o fumante. A culpa gerada pelo fato de se ser usuário do pequeno cilindro de fumo e fumaça vai levar muitas pessoas a abandonarem o vício e o grau de stress vai explodir em vários lugares como consequência disso.

Quantos casamentos, quantas amizades, quantas relações empregado-empregador continuam a existir apenas porque se pode acender um cigarro e pensar dez vezes antes de se explodir com alguém?

Mallarmé dizia que entre ele e o mundo deveria existir uma leve cortina de fumaça, esta produzida pelo charuto que sempre carregava e que pode ser visto no seu belo retrato pintado por Manet. Talvez o primeiro retrato existencialista da história. Nessa afirmação do poeta francês está implícita também uma concepção de poesia e arte apenas como sugestão, como a imagem das coisas tornadas indefinidas por causa da fumaça do cigarro.

Eu tenho uma amiga, Vreni Widmer, que se mudou da Suíça para o Brasil, que sempre acende um cigarro, apenas um, no fim do dia, reservando esse momento ritual para repensar a vida diariamente. O cigarro sendo o elemento que faz sua ligação com as correntes subterrâneas do seu ser.

Já outra querida amiga, que é cantora, a Marie Irene, tem sentido como positiva a ausência de fumo nos bares em que ela canta, pois sua voz melhorou significativamente e está livre daquele cheiro horrível de cigarro que fica encrustrado na roupa de quem frequenta ambientes com fumantes.

Eu sou um fumante irregular. Se estou em um bar bebendo posso acender um cigarro e fazer dele uma companhia agradável, que aumenta meu prazer e relaxamento nesse raro momento de lazer. Se me sento para escrever e me sinto bloqueado, um cigarro pode ser o disparador das frases que sucessivamente vão acontecer em seguida. Também posso ficar meses sem fumar, como agora, sem o mínimo incômodo.

Não me irrito com a presença de fumantes em bares, restaurantes, reuniões. Ao contrário, a presença do cigarro dá um charme ao ambiente e a quem estiver fumando. Sempre deixo cigarros e charutos em casa para visitas poderem se deliciar com o prazer do fumo.


No entanto, o beijo feminino cheirando a cigarro me incomoda um pouco. Não vejo sentido no uso do cigarro numa ocasião tão especial como o encontro amoroso. O cigarro impede a absorção do cheiro natural da pele, elemento que aguça nossa sensibilidade erótica. Também me causa estranheza o prazer do cigarro após o ato amoroso, já que deveríamos estar bastante relaxados. Para algumas pessoas, o cigarro pós-ato é um ampliador do prazer que se acabou de ter; para outros, o cigarro antes da relação seria uma espécie de calmante para se entrar de forma segura na aventura das trocas afetivo-sexuais. A cada um seu prazer e sua dor.

Eu tive uma namorada que fumava bastante e o quanto isso era charmoso é indescritível. Que classe a menina tinha ao portar um cigarro na mão e levá-lo à boca! Essa imagem vale por todos os prazeres que se pode ter. Como a imagem de uma grande obra de arte, esta imagem não abandonará nunca a minha mente.

Mas o charme não é comum a todos os fumantes. Há aqueles que nem conseguem segurar direito o cigarro e o tragam de uma forma tão nervosa e desajeitada que o tornam o gesto de fumar insignificante. O fumante charmoso é aquele que leva o cigarro à boca e o traga como se estivesse tendo uma grande ideia ou movendo o universo no seu gesto.

O ex-fumante é um chato, mas não deixa de ser também um sujeito que teve uma melhoria significativa da saúde. Segundo pesquisas médicas, ao se largar o cigarro em poucos dias nota-se uma melhora do paladar, da tosse, da capacidade física, do olfato, da potência sexual e da autoestima. Em seis meses melhora-se a circulação sanguínea e o risco de infecções respiratórias. Em um ano cai 50% o risco de morte por problemas vasculares. Em dez anos reduz-se o risco de morte por câncer pulmonar. 

As doenças geradas pelo cigarro são apenas o sinal da vingança do corpo contra o espírito liberto pela tragada do cigarro. Sendo sublime e terrível, segundo uma famosa frase do escritor Oscar Wilde, “o cigarro é a forma perfeita de prazer: elegante e jamais satisfaz”. 


FONTE: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2874&titulo=Cigarro,_apenas_um_substituto_da_masturbacao?

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Jeff e a Fé. - By Dionísio H.

Eram duas da madrugada. O pequeno Jeff estava terminando seu dever de casa que consistia em contar a trajetória de Jesus de forma atual. Como seria o Messias de 2011? - Quatro e pouco da manhã Jeff termina seu trabalho mas por ironia do de(u)stino, a luz acabou e nada daquelas 200 páginas foram salvas. Jeff, completamente puto, não sabia quem culpar. Mas lembrou que seu padre havia dito onde estiverem falando sobre meu nome, eu lá estarei.

Então Jeff começou a gritar por Deus e ele apareceu. 

-O que foi rapaz! Isso são horas? Vá dormir…

- Desculpe Deus, mas preciso da sua ajuda.

- O que houve?

- Eu fiz um trabalho sobre o seu filho, Jesus, mas o computador apagou e o trabalho não foi salvo.

- Se vira! Está tarde e preciso dormir…

Jeff, extremamente puto, assumiu sua nota vermelha. 

Doze anos depois ele fundou o Slayer.

Fim.

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Gabriel e o Tráfico das Almas - Por Dionísio H.

“Eu sou o preferido do senhor. Mas por que diabos preciso ficar aqui no inferno vigiando o satã?”

O jornal celestial me chamou para cobrir essa matéria que está dando o que falar lá no paraíso. De início, Deus foi escalado para fazer a reportagem, mas ele ficou lá sentado polindo seu cetro de ouro e disse que eu teria que fazer.

Desci  e fui procurar o Mefistófeles, mas ele não quis gravar entrevista, então tive que dormir com o Caveirinha, o porteiro do inferno, e consegui a entrevista, que segue abaixo na íntegra:

Rezando sobre Pregos: Por quê todos estão indo pro Inferno?

O inferno anda saturado. Chegando lá, passei por uma orgia de um grupo de funk recém chegado. Parece que foi acidente de carro ou confronto com a polícia. Mas o tráfico de almas está fora de controle. Dizem que as almas que deveriam ir pro céu estão vindo pro inferno, mas por quê? 

S. P., porteiro do céu que não quis se identificar, mostrou a cópia dos nomes que constam no livro da vida e muito dos nomes que lá estão e já desencarnaram estavam no inferno. “É impressionante. Por dia, recebo várias visitas, mas eles já perguntam qual o caminho do inferno!” diz S.P.

Gravamos com o Caveirinha, o recém contratado porteiro do inferno. “Antes não precisava de porteiro. Era só chegar e entrar. Mas o Satã me contratou para fazer um censo. Por dia quase 500.000 pessoas vão entrando. São tantas que eu mal consigo anotar os nomes e enviar para São Pedro”.

Acontece, meus caros angelicais leitores, eu descobri o mistério.

Das 500 pessoas que entrevistei, todas disseram ter uma simpatia pelo diabo. Ao serem questionadas porquê, todas respondiam “humildade”.

Querem dizer que nosso senhor não é humilde? Ele matou o próprio filho por vocês! Ele destruiu Sodom e Gomorra para salvar vocês! Ele limpou o mundo com o dilúvio e o reconstruiu! Deus é puro amor e criou vocês a sua imagem e semelhança! Peço que revejam seus conceitos!

Um grande abraço

Gabriel

P.S: Até o fechamento dessa edição, lamentamos informar que Gabriel foi demitido do jornal. Ele agora habita o inferno e se chama Lúcifer. Ele diz que eu, o todo poderoso Deus sou mal e cruel. Ele é um anjo ingrato! Eu sou perfeito! Não posso permitir que um ser que eu criei me julgue dessa forma. Disse que andou prestando atenção nos humanos, e por serem minha imagem e semelhança, começou a acreditar que o que mais curto é uma desgraça.

Enfim, a minha benção :D

Beijos

Deus

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O Meu Eu Atual…

A impaciência ronda meu ser, mas a rebeldia está longe de mim. A vontade de vencer na vida é passado, o segundo lugar até me interessa. E por que não o terceiro? Ser o primeiro é bobagem. Quer dizer, quero ser realmente exemplo para alguém? Eu não sou o que são os meus irmãos, eu sou livre.

Penso de minha forma atrás da minha parede social. Não sofro repressões quando estou nela. Aprendi a não ser mais sincero pois ninguém curte sinceridades. Apenas fico na minha e formulo pensamentos que evitam que meu cérebro se inative e que propicie mais formigamento na língua, já que pouco a uso.

Meu rumo não é o antisocialismo extremo, mas o mínimo possível é bom. Dessa forma fico protegido das ameaças do mundo externo que possam me machucar e também protejo os outros da ameaça que eu possa me tornar.

Sou feliz do meu jeito. Venço as batalhas com minhas estratégias. Tenho as minhas não crenças e só coloco meu chapéu onde posso apanhar.

Sou o estranho, o inabitável, o torto, o panaca, mas a quem valorize. 

Outro dia mesmo uma moça espírita pegou em minha mão e começou a chorar dizendo que eu tinha um forte poder e que precisa ser tratado. Prefiro deixá-lo morrer dentro de mim, pode ser um Denis aprisionado querendo sair. Pode ser o anti cristo. Pode ser o messias. Pode ser lorota, bobagem pura, ou apenas pode ter sido um delírio.

Enfim…Não sou o resultado de x + y = c, e nem me decifrarei com a ajuda de Pitágoras, mas aos meus passos eu chego lá. Mesmo caminhando no escuro, uma hora se bate em uma porta. Caso não tenha a chave, paciência. Arrombá-la seria grosseria ao ritmo que minha vida toca, então prefiro voltar a fita e tentar encontrar alguma outra maneira de seguir sempre em frente e evitar as barreiras.

Enfim…

Dionísio H.

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O Dia em que deixei de ser “O Irmão do Douglas” por Dionísio H.

Segue abaixo o capítulo 07 do meu livro:

Prefácio:

Antes de mais nada, quero explicar o porquê do título. Não vão pensar que briguei, e deserdei Douglas de meu sangue! Nada disso.
É apenas uma historia de um simples irmão, que na época, era o mais novo, e precisava do irmão mais velho para se socializar.
Este livro biográfico, vai lhe trazer ou relembrar uma história de irmão novo.
Que precisa de proteção, permissão para sair, para namorar como ponto fraco e como ponto forte, nunca é culpado por nada!
Conta também a transição para filho do meio, quando nos sentimos injustiçados e perdemos os pontos fortes de irmão mais novo
E recebemos a responsabilidade de um quase irmão mais velho.
É uma leitura agradável, simples, e biográfica! Não que minha vida seja importante, ou de alto relevância para alguém, mas é
Que foram muitas aventuras para conquistar a fama de Denis.
Espero que apreciem…

Dionísio H.


Capítulo 7 – Miza, a nova “empregada”…

E se morri, era para o inferno que estava indo.
Quando tudo clareou, estava caindo em uma profunda caverna cinzenta, e lá abaixo, fogo. Muito fogo.
Apesar de ser novo, eu já sabia o que era céu e inferno. E sabia que se estava ali, eu não devia ter sido um bom garoto. Estava caindo depressa, porém não chegava nunca ao fundo. Via vários outros vultos caindo, nenhum era legível, apenas borrões e traços escuros indo direto ao sofrimento eterno.
Gritos de dor e pavor começaram a surgir, e a cada segundo aumentavam a freqüência. Estava chegando o fim de minha existência. Minhas costas começaram a queimar, assim como meus pés. Por quê estava ali? Por quê estava indo para o inferno? Não me despedi dos meus pais. Eu tinha tanto para viver!
Agora meu corpo queimava por completo. A agonia da carne se desprendendo carbonizada do meu ser era muito real. Já estava afundando no fogo que nunca apaga.
Rapidamente tudo clareou e acordei. O que foi tudo aquilo? Será que estava realmente morto? Não era possível, pois o ambiente havia mudado. Não, não estava morto. Era meu quarto! Sim, o sol já irradiava seus raios pela janela!
Estava com impressão de ter dado a volta no planeta engatinhando tamanho o cansaço que ainda sentia. A noite eterna e a visita ao inferno fizeram daquela noite de descanso um terror.
Rapidamente me sentei na cama todo molhado de suor. Precisava contar para a minha mãe. Mas será que ela iria acreditar? Ela havia dito que o que estava acontecendo eram meros pesadelos. Mas por quê tão reais? É como se meu corpo estivesse com as dores de tudo o que sofri, mas sem marcas. Mas eu sentia que estava lesado. Minha garganta, minha cabeça, minhas costas. Meu abdômen doía devido à pressão dos pés misteriosos com as galochas. Precisava contar.
O espanto maior foi ir para a sala e não encontrar nem o Douglas, nem minha mãe.

Aonde foram? Milhares de pensamentos horríveis invadiram minha cabeça, mas eu precisava manter a calma. Fui até o quintal, dei carícias nos nossos cachorros Alf e Maradona e ver se os dois estavam por ali. Ninguém.
Minha mãe não costumava deixar nenhum dos dois sozinho. Fui para a sala e decidi me distrair assistindo um pouco de T.V. Conforme fui me distraindo com a programação, vi algo passando da cozinha para o meu quarto. Tinha mais alguém na casa? Quando me levantei me certifiquei de procurar na sala e no quintal, mas não olhei a cozinha, banheiro e nem o próprio quarto de minha mãe.
Levantei para ir até meu quarto. Quando me levantei, meus pés sentiram uma fraqueza enorme, como se houvessem desaprendido a andar, e cai novamente no sofá. Aquilo que havia ido para meu quarto saiu e foi em direção a cozinha. Aquela fraqueza agora afetava minha visão. Meus olhos se encheram de lágrimas, como se estivesse com muito sono e não consegui ver perfeitamente o que havia passado ali. Imóvel no sofá, virei um ser vegetal durante alguns segundos. Quando voltei para mim, surge da cozinha o que eu tanto buscava.
Era uma bela moça, já com uns 40 anos. Usava saias que me lembravam as evangélicas, uma blusa verde piscina feita de crochê, olhos pretos, branca e bastante pálida, cabelos amarrados, meias vermelhas que cobriam suas canelas, um sapato masculino, com as mãos, uma em cima da outra, abaixo do umbigo. Ela sorriu para mim e disse:
- Tudo bem Denis dorminhoco? 
Eu não tive ação na hora. Fiquei ali parado tentando lembrar da pessoa que estava em pé a minha frente.

Seria uma nova empregada? Mas minha mãe não havia dito nada, já que fazia pouco tempo que dispensamos a Márcia, e minha mãe assumira essa tarefa.
Quando pensei em perguntar quem era ela, logo respondeu:
- Me chamo Miza! Estou aqui para cuidar de você enquanto sua mãe esta ausente.
Aquilo foi estranho, mas muito confortante. Era uma nova empregada! Respirei aliviado e perguntei:
- Caramba! Você leu o meu pensamento! 
- Te conheço muito bem Denis, a mais tempo do que imagina ou possa lembrar.
Aquilo me soou estranho. Me senti nascido com 80 anos e regredindo conforme os anos, até alcançar os oito e esquecer quem era ela.
As dúvidas cessaram por um instante e deram lugar a fome. 
Coloquei a mão no estômago que parecia gritar de fome. Já eram sete e meia e não havia comido nada. Miza rapidamente disse:
- Pegue as coisas no armário e vá tomar o café da manhã. Tenho o que cuidar lá fora.
Fui para a cozinha, mas não havia nada preparado. Peguei o leite na geladeira, o Toddy no armário e misturei. Peguei umas bolachas de água e sal e comecei a tomar meu café da manhã.
Escuto barulhos de chaves e o portão abrindo. Devia ser minha mãe chegando com o Douglas.Fui até a porta para constatar e eram os dois. Pelo volume de sacolas, minha mãe vinha com o Douglas da padaria.

Ela me flagrou na mesa e questionou:
- Já de pé? Que foi? Caiu da cama?
- Não. Acordei as sete e pensei que tivesse saído com o Douglas. Ai a Miza pediu para eu tomar o café.
Minha mãe, com uma dúvida estampada na face, me questionou:
- Miza? Quem é Miza?
- Ué! A nova empregada que a senhora contratou. Quando me levantei, ela já estava aqui. 
- Você estava sonhando Denis, pois não contratei nenhuma outra empregada.
De início, pensei que minha mãe estivesse brincando comigo, mas pelo que já a conhecia, ela não era de brincar.
Meu alívio momentâneo foi substituído por dúvidas. Eu estava realmente sonhando? 
Fui para a sala, coloquei as mão na cabeça e me perguntei como um adulto cheio de problemas:
- O que está acontecendo comigo?
Mal eu sabia que logo mais, à noite, isso me seria revelado…

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“Um passarinho fez seu ninho lá no paiol para ver dali o nascer do sol…”

“Um passarinho fez seu ninho lá no paiol para ver dali o nascer do sol…”